|
EQUIPAMENTOS GERADORES
E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA
José André P. Angotti
Rejane Aurora Mion
|
|
| |
|
|
| |
| RESUMO |
|
Ao constatar que a formação de professores
de Física no Brasil - pouco afeta os 'resultados' da ciência
aplicada, nossa meta é incorporar os universais da Física
na cultura popular, além de construir e difundir a cultura científica-tecnológica,
ao abordar temáticas, investigando objetos técnicos para
admirá-lo em seus princípios básicos e reconstruí-lo
posteriormente. Trata-se aqui de redefinir melhor qual é o papel
do objeto técnico como equipamento gerador. Redefinindo o vínculo
do equipamento gerador com CTS e, principalmente, tornar ciência
esse vínculo. Como avanços e recuos inerentes às
condições de nossa atividade de pesquisa e docência,
estamos alcançando de maneira colaborativa com os licenciandos
resultados em escala ainda modesta que poderão contribuir para
mudanças imperativas nas atividades de formação,
ensino e aprendizagem de Ciências/Física.
|
| |
| INTRODUÇÃO |
|
Apresentamos uma proposta que vem sendo construída
via investigação e ação no ensino formal
de Física, que busca a transformação de equipamentos
tecnológicos "resolvidos" em equipamentos geradores
de reflexão, indagação e conscientização.
O processo é comprometido com as dimensões temáticas
do ensino-aprendizagem e com a tríade ciência, tecnologia
e sociedade. Os resultados mostram que o trabalho docente é possível
nesta direção, seja na descodificação dos
equipamentos ou na aprendizagem mais significativa dos universais da
Física vinculados aos produtos tecnológicos tradicionais
ou contemporâneos, usualmente reconhecidos pelos licenciandos
e seus alunos do ensino médio.
O trabalho com os objetos técnicos, quando transformados em equipamentos
geradores (1) nas aulas de Física, constitui
um dos componentes importantes para o processo de conscientização,
que se estabelece na problematização e manuseio reflexivo
do mesmo onde se dá a alfabetização técnica.
Qual o potencial formador de uma proposta educacional pautada pelo manuseio
reflexivo de aparatos tecnológicos?
1- Equipamentos geradores, segundo
De Bastos (1995), são aqueles artefatos tecnológicos e/ou
objetos do cotidiano dos envolvidos, que oferecem possibilidades e condições
de gerar um plano de aula ou um programa educacional em torno das leis,
teorias e princípios envolvidos na fabricação e
funcionamento destes.
|
| |
| NATUREZA DO CONHECIMENTO ENVOLVIDO
NA PROPOSTA E SEUS SUPORTES TEÓRICO-PRÁTICOS |
|
Para a elaboração, desenvolvimento e
avaliação dessa proposta educacional estão envolvidos
conhecimentos estruturais: conceitos físicos, relações,
fenômenos e princípios; conhecimentos procedimentais: construção
e aplicação da proposta a partir de uma "espiral"
de planejamento - ação - observação e reflexão.
A proposta é desenvolvida a partir da investigação
de um objeto técnico. Este é condição necessária
para ser transformado, à luz do processo de investigação-ação,
em um equipamento gerador. Um objeto técnico precisa ser revelado
em suas múltiplas dimensões para ser equipamento gerador
de conhecimentos tanto da Física aplicada, como dos seus universais.
Um dos interesses nossos em destacá-lo é que através
dele se estuda Física comprometida a conhecimentos de atitude:
valores, princípios educativos, autonomia e colaboração,
bem como, com as competências e habilidades a serem desenvolvidas
em Física, dentre elas, compreender manuais de instalação
e utilização de aparelhos, mas principalmente, descobrir
'como as coisas funcionam'. Investigando-os, compreender a lógica
de funcionamento, o que significa, também, identificar regularidades.
Descreveremos o caminho, com destaque para a ação, para
transformar um objeto técnico em equipamento gerador (De Bastos,
1995). O subsídio maior da proposta, que estrutura o programa
de investigação, está nas funções
da Teoria Social Crítica (Carr e Kemmis, 1988): 1) seus elementos
teóricos; 2) organização de processos de ilustração
via construção de projetos e 3) organização
da ação. Diante disto, adotando como concepção
educacional a perspectiva diálogico-problematizadora (Freire,
1987 e 1997) e, como concepção de pesquisa, a investigação-ação
educacional crítico-ativa, trabalhamos com o que entendemos ser
o núcleo da proposta: o método da conscientização
em Freire e a espiral auto-reflexiva de ciclos em exponencial (Lewin,
1978) mas re-elaborada na investigação-ação
educacional, de matriz emancipatória (Carr & Kemmis, 1988).
A partir disso, agregamos a concepção de alfabetização
técnica, buscando suas interpretações e sua adequação
a nossos propósitos (Bazin, 1977; De Bastos, 1990 e 1995; Fourez
et al., 1997 e Bloomfield, 1997). Esses autores priorizam a incorporação
do conhecimento científico-tecnológico no universo cultural
dos envolvidos, ainda que prevaleçam distinções
nas abordagens dos mesmos.
Investigar equipamentos geradores e viabilizá-los didaticamente,
consideradas as fortes restrições do ensino formal é
difícil e complexo. Faz-se necessário re-inventar a concepção
de temas geradores freireanos em equipamentos geradores, obra iniciada
por Bazin (1977), seguida por De Bastos (1990 e 1995) e, mais recentemente
e com férteis aproximações teórico-práticas,
por Bloomfield (1997).
Para a organização da ação das nossas atividades
educacionais, utilizamos os momentos pedagógicos (Angotti &
Delizoicov, 1992a e 1992b), resultado de uma construção
onde se apresenta uma metodologia indicada para cursos e aulas de ciências
naturais, com destaque para a codificação-descodificação
e a recodificação. Dinâmica e evolutivamente, tais
momentos são classificados em: problematização
inicial, organização do conhecimento e aplicação
deste conhecimento. Embora o terceiro momento, ao priorizar a aplicação,
possa parecer conflitante com uma concepção dialógico-problematizadora,
ressaltamos que não se trata de aplicação direta
ou mecânica; mas sim o retorno às questão problematizadas
com os óculos da teoria incorporada, na busca de mudanças
nas cosmovisões dos educandos.
Outro aspecto relevante é a utilização da categoria
epistemológica dos conceitos unificadores das temáticas
significativas de modo a se evitar excessos de fragmentação
no recorte - redução temática - e na abordagem.
Os ganhos culturais advindos do conhecimento em Ciência e Tecnologia
(C&T) precisam ser socializados a todos os escolarizados e isso
não ocorrerá sem a apreensão dos conceitos unificadores,
no sentido dos universais (ANGOTTI, 1991 e 1993). Significa também
a pressuposição à ênfase no relacional, na
capacidade articuladora dos conceitos de se associarem construtivamente
a outros, na busca de estruturações e de ordenação
de saberes. O que queremos na prática é avançar
em relação à complexidade no ensino de Ciências
Naturais, inclusive buscando a articulação entre conhecimento
científico, processos e produtos tecnológicos e as relações
sociais mais evidentes entre estes.
Os conceitos unificadores, necessariamente supradisciplinares, são:
1 - Transformações: da matéria viva e/ou não
viva, no espaço e no tempo. 2 - Regularidades: que caracterizam
e agrupam as transformações mediante regras, semelhanças,
ciclos abertos ou fechados, repetições e/ou conservações
no espaço e no tempo. Neste sentido são entendidas enquanto
'regularidades de transformações'. Elas constituem a contrapartida
das transformações no conhecimento, sobretudo no conhecimento
científico. 3- Energia: conceito que incorpora os dois anteriores
com a vantagem de atingir maior abstração, de poder ser
expresso em linguagem matemática de grande generalização
e condensação, para instrumentalizar transformações
e invariância, e ainda de estar associado à degradação
- variação positiva ou nula da entropia nos sistemas isolados.
4 - Escalas: que enquadram os eventos estudados nas mais distintas dimensões.
Ergonométricas, macro ou microscópicas a nível
espacial, de durações normais, instantâneas ou remotas
a nível temporal; igualmente, com auxílio dos três
conceitos anteriores, na utilização das "faixas de
energia" ou escalas energéticas.
Na perspectiva problematizadora dos conhecimentos internos da Física,
debate-se também os seus limites, particularmente os da Ciência
Clássica, para além do seu alcance. Ao desvelar o objeto,
reorganizam-se os conceitos envolvidos, a partir da construção
de mapas conceituais, requisitos para as análises de percepção
e interpretação dos dados registrados no processo, a partir
de reflexões individuais e coletivas, bem como, sugestões
para eventuais replanejamentos. Neste processo os professorandos passam
pela elaboração, desenvolvimento e avaliação
das propostas, sistematizando a reflexão das suas práticas.
|
| |
| O POTENCIAL DOS EQUIPAMENTOS GERADORES
NA FORMAÇÃO DOCENTE |
|
A partir do levantamento e seleção do
objeto técnico é possível investigá-lo e
conduzir esse processo a desejáveis níveis de abstração.
Pode-se dizer que esse caminhar é o da codificação,
descodificação e recodificação, direcionada
para mudança de percepção ao ritmo de uma espiral
auto-reflexiva em exponencial. Em cada ciclo, há revisão
e crítica da percepção anterior, para a seguir,
projetarmos a próxima ação.
O desafio é reelaborar os conhecimentos físicos e educacionais
através do desvelamento de princípios envolvidos na fabricação
e funcionamento de alguns objetos tecnológicos como possibilidade
de refletir sobre seus significados. Os aspectos técnicos sempre
podem ser entendidos pelo conhecimento científico, em particular
o da Física. Seja este visível e palpável por meio
dos modelos da Física Clássica macroscópica, seja
invisível, pouco tangível, por necessitar de interpretações
da Física Moderna.
Cabe-nos contudo, mostrar como codificando-descodificando e recodificndo
aparatos técnicos, simples ou complexos, preocupados com os desafios
impostos pelas relações entre Ciência, Tecnologia
e Sociedade - CTS, estes passam a ser equipamentos geradores de conhecimentos
educacionais em Física. Em que medida os equipamentos geradores
como processos e produtos científico-tecnológicos reúnem
possibilidades de apreensão, tanto sob o ponto de vista científico
de seu funcionamento bem como possibilidades de construção
do conhecimento, segundo uma concepção dialética,
em sua relação com a tecnologia e a sociedade?
Uma proposta a partir de 'como funcionam' os objetos técnicos
pode contribuir para a construção da cidadania, a busca
e o alcance da conscientização, porém, concebendo
este instrumento como objetificação de conhecimentos provenientes
de construções humanas. Trata-se portanto, de não
omitir e muito menos subestimar o aspecto técnico, mas incorporá-lo
enquanto cultura científica-tecnológica necessária
para crescermos culturalmente. Portanto, estudar o objeto do ponto de
vista de que é resultado de uma prática tecnológica,
produto da atividade humana, requer estudar o caminho da abstração
para se chegar ao conhecimento crítico.
Para tal se faz necessário explicitar a concepção
de objeto técnico, abordando-o em suas várias dimensões:
como artefato tecnológico encerra princípios científicos;
como artefato cultural, representa mudanças nas formas de vida,
concepção de mundo, etc.; em sua dimensão política,
pode levar-nos a compreender as relações de poder e de
dominação presentes em um grupo social e, em sua dimensão
epistemológica, o processo de investigação temática
acoplada à investigação-ação; de
produção de conhecimento, como um movimento de apropriação
do real, que vai do concreto (fenômeno) ao abstrato, gerando desta
forma, níveis cada vez mais complexos de conhecimento. Enfim,
como mercadoria, encerra valor de troca, sintetizando em si as relações
de produção social vigentes.
Com relação às possibilidades dos equipamentos
geradores no universo virtual, vimos desenvolvendo, desde 1998, com
os professorandos de Física da UFSC materiais de ensino com o
uso sistemático de multimeios, priorizando tópicos e temas
de Física Moderna e Contemporânea, ainda muito pouco presentes
nas publicações didáticas do Brasil. Em particular,
o acervo virtual complementa as demonstrações em sala
com os protótipos. Em alguns casos - usinas nucleares, partículas
elementares, por exemplo - as vantagens do acervo virtual são
evidentes e não encontram contrapartida experimental no ensino
escolar.
Resultados parciais deste trabalho conjunto vêm permitindo sua
aplicação em sala de aula do Ensino Médio do estado
de SC. No momento, estamos implementando em uma unidade escolar equipamentos
geradores do eletromagnetismo, em particular "motores e geradores".
Inicialmente, os alunos (11o e último ano de escolaridade básica)
trabalharam em grupos de três junto a computadores/simulações,
numa perspectiva problematizadora, com roteiro próprio. A seguir,
visitaram um laboratório de demonstrações do Dep.
de Física da UFSC, explorando os protótipos "reais".
Na próxima semana passarão por discussões formais
dos fenômenos já "conhecidos", com destaque para
a lei de Faraday-Lens. Tais atividades, produzidas pelos nossos alunos
de graduação, são acompanhadas pelos autores, com
gravações e entrevistas. Os resultados parciais são
animadores e apontam para o despertar dos alunos para o valor e o alcance
das teorias da física, a partir de equipamentos que conhecem
e manipulam, como usuários.
Seminários e aulas especiais em outras escolas da região
são promovidos pelos licenciandos, nos seguintes tópicos
exemplares por eles produzidos: lazer e fibra óptica; células
fotoelétricas e foto-voltaicas; fulerenos; física-médica.
Estes materiais didáticos virtuais estão sendo disponibilizados
gratuitamente na rede web, podendo ser acessados via link da página
http://www.ced.ufsc.br Cópia desta tela/roteiro inicial é
apresentada seguir.
|
| |
| A DIMENSÃO EPISTEMOLÓGICA
IMPLÍCITA NAS ATIVIDADES QUE ENVOLVEM OBJETOS TECNOLÓGICOS |
|
Por que uma cultura tão permeada por incontáveis
instrumentos, técnicas, sistemas tradicionais e sofisticados
não desenvolve propostas educacionais norteadas pelos mesmos?
WINNER (1987:21), responderia que: "... grande parte da resposta
podemos encontrá-la na assombrosa influência da idéia
de 'progresso' no pensamento social durante a era industrial. E que
no século recém findado "os únicos meios confiáveis
para o melhoramento da condição humana provém das
novas máquinas, técnicas e substâncias químicas".
Não obstante avanços da pesquisa em ensino de ciências
em favor do balanço risco/benefício da Ciência e
Tecnologia é ainda pensamento vigente que a tecnologia vai nos
dar melhores condições de vida. Aposta-se apenas na tecnologia,
deixando para um segundo plano o ser humano, esquecendo que ele é
capaz de planejar, agir, observar e refletir, educando-se no processo,
ao desenvolver a capacidade de reelaborar conhecimentos indispensáveis
às mudanças das condições de vida.
Concordamos com o autor quando afirma que do ponto de vista convencional,
as relações humanas com os objetos técnicos são
consideradas óbvias demais para merecer uma reflexão sistemática.
Muitas vezes desconhecemos as regras de funcionamento dos objetos técnicos,
além disso, por estarmos tão próximos de alguns
deles, não os problematizamos. Não questionamos sobre
como funcionam, seu custo, valor agregado, qualidade e nem como foram
fabricados, ou sobre as causas e/ou conseqüências da sua
inserção no nosso meio. O autor diz mais:
"Causa decepção a noção razoável
que herdamos de tempos antigos e menos complicados: a que divide a gama
de possíveis interesses acerca da tecnologia em duas categorias
básicas: fazer e utilizar. Na primeira a atenção
se centra em 'como funcionam as coisas' e em 'fazer que as coisas funcionem'.
Temos a tendência de pensar que esta é uma atração
para certas pessoas em determinadas ocupações, porém
nada mais. 'Como funcionam as coisas' é o terreno dos inventores,
os técnicos, os engenheiros, os mecânicos de reparações,
etc., quem prepara os instrumentos artificiais para a atividade humana
e os mantém em bom funcionamento. Se pensa que aqueles que não
estão diretamente envolvidos com nenhuma das diversas esferas
do 'fazer' têm pouco interesse ou necessidade de conhecer os materiais,
os princípios ou os procedimentos que incluem ditas esferas"
(WINNER,1987: 21).
No ensino de Física, por vezes esquecemo-nos da nossa responsabilidade
na construção da cidadania dos envolvidos, ao priorizar
os valores internos desta ciência, "acima de qualquer suspeita
ou acontecimento". Tal construção poderá ser
mais tangível através da implementação de
propostas epistemológicas e metodológicas reflexivas sobre
objetos técnicos. Há a preocupação em fazer
com que as coisas funcionem e saber como elas funcionam, sem pensar
no seu potencial emancipador ou não, isto é, sem compreender
que esse aprendizado pode ser um componente de ações libertadoras
do desconhecimento.
Isto implica em dizer que não se dá atenção
à "adequada interpretação" do significado
mais prudente que tecnologia possui. Neste sentido, ensinar e aprender
Física, é ao mesmo tempo adquirir conhecimentos científicos
históricos e socialmente construídos, de modo a propiciar
o entendimento de fenômenos da natureza bruta, bem como da transformada,
com os quais interagimos diariamente. Segundo WINNER (1987:22): "A
linguagem da noção de 'uso' também inclui termos
comuns que nos permitem interpretar as tecnologias segundo uma variedade
de contextos morais. As ferramentas podem ser 'usadas bem ou mal', e
para 'bons ou maus propósitos'".
Se quisermos nos desenvolver, caminhando em direção a
uma análise ou filosofia tecnológica crítica, é
preciso superar a idéia convencional do que é tecnologia
e do que ela significa. É fundamental questionar o "como
a tecnologia afeta nossa vida?". Nossos conceitos, idéias,
relações sociais, limites morais e políticos têm
sido reestruturados no curso do desenvolvimento tecnológico moderno.
Como afirma WINNER (1987:26): "... parece que é característico
da relação de nossa cultura com a tecnologia o fato de
que raramente estamos inclinados a examinar, discutir ou julgar iminentes
mudanças com ampla e plena consciência do que estas implicam".
Estas mudanças nem sempre são conscientes e planejadas.
Por exemplo, os computadores e os fornos de microondas são adquiridos
por necessidade "criadas", normalmente de consumo e que na
maioria das vezes atropelam as mudanças nas formas de vida.
"Poderia parecer que o ponto de vista que estou sugerindo é
de determinismo tecnológico: que a inovação tecnológica
é a causa fundamental das mudanças sociais e que os seres
humanos não temos outra possibilidade que sentarmos e observar
o desenrolar deste processo inevitável. ... Segundo meu ponto
de vista, uma noção mais reveladora é a de sonambulismo
tecnológico. O interessante problema de nosso tempo é
que caminhamos dormindo voluntariamente através do processo de
reconstrução das condições da existência
humana" (WINNER, 1987: 26).
Pensamos que é muito mais que "sonambulismo" por parte
da população. É, isto sim, falta de formação
escolar em ciência e tecnologia, falta de conscientização,
mas principalmente reflete a intencionalidade e a lógica de políticas
e das relações sociais capitalistas e sua evidente perversidade
e exclusão. Em tais relações o lucro é sempre
mais importante que o ser humano, o mercado regula as demandas e define
os perfis ideais, as competências... O sonambulismo citado pelo
autor refere-se à alienação produzida pela propaganda
que objetiva o consumo -- compramos levados pela propaganda ou por um
possível status que a aquisição pode nos proporcionar
e não pela necessidade ou pela utilidade.
Não se trata de ser contra ou a favor da tecnologia, mas ter
consciência de como ela pode contribuir na qualidade de vida,
e de nossa compreensão do significado da tecnologia na vida humana.
Para WINNER (1987:36-37), "O que importa não é a
tecnologia mesma, mas o sistema social ou econômico no qual está
incluída" A nossa tarefa enquanto educadores na formação
científica e educacional em ciências naturais e tecnologia
é trabalhar em um sentido contraposto ao determinismo tecnológico.
Os filmes de ficção (novelas futuristas) vão induzindo
o telespectador a aceitar e mudar seu comportamento, valores e a própria
consciência. Com tanta violência que se vê na televisão,
a inversão e crise de valores em que vivemos, aliados a quase
certeza da impunidade, corremos o risco de acharmos tudo normal. Por
outro lado, já nos acostumamos com alguns aparatos tecnológicos
fruto de avanços científico-tecnológicos e que
sem eles perderíamos boa parte da qualidade de vida e a possibilidade
de construirmos melhores condições de vida e de trabalho,
podendo-se dizer que a própria vida estaria ameaçada sem
eles. Eis aqui talvez a maior mudança. A mudança está
implícita, não é mero efeito que poderá,
ou não poderá acontecer.
O modo como os homens produzem seus meios de vida depende, antes de
tudo, da natureza mesmo dos meios de vida com que se encontram e que
se trata de reproduzir. Este modo de produção não
deve considerar-se somente enquanto é a reprodução
da existência física dos indivíduos. É, melhor,
um determinado modo de atividade destes indivíduos, um determinado
modo de manifestar sua vida. Tal e como os indivíduos manifestam
sua vida, assim são (Marx apud WINNER, 1987:30).
Quando a imaginação política se confronta com as
tecnologias como formas de vida, deveria poder dizer algo acerca das
eleições (implícitas ou explícitas) feitas
no curso da inovação tecnológica e os motivos para
efetuar tais eleições de forma sensata (WINNER,1987:34).
Quantas são as pessoas que conhecem a tecnologia do fazer propaganda
política? Segundo Winner (1987), os artefatos podem conter propósitos
políticos. Primeiro, os artefatos tecnológicos se convertem
numa maneira de solucionar um problema social. Por exemplo, bomba d'água
no Nordeste. Segundo, 'tecnologias inerentemente políticas'.
Com o termo 'política', Winner (1987) quer dizer disposições
de poder e autoridade em associações humanas assim como
atividades que tem lugar dentro dessas disposições. Por
tecnologias, entende peças ou sistemas maiores ou menores de
hardware de uma classe específica.
É necessário implementar propostas político-pedagógicas
que viabilizem a educação numa perspectiva libertadora
dos envolvidos. Reelaborar os conhecimentos físicos, assumidos
como conhecimentos educacionais em Física mediante o estudo das
leis, princípios, conceitos, e relações de conceitos,
etc., envolvidos na fabricação e funcionamento de artefatos
tecnológicos como possibilidade de refletir sobre seus significados.
Quando em uma aula de Física, mais especificamente, quando se
trabalha com os princípios de conservação da Energia
se discute assuntos como por exemplo, a atual crise de fornecimento
no Brasil e em outros países? Como, onde e por quem é
decidido que tipo ou que capacidade deve ter uma usina? Onde deve ser
construída? Quando as comunidades são convidadas a discutir?
Ou devemos todos acreditar e concordar que uma usina como a gigante
Itaipú é o melhor modelo? Face à constante opção
dos alunos pelo automóvel por ocasião dos levantamentos,
somos testemunha que esta máquina é forte candidata a
ser investigada como equipamento gerador. E mais, sendo o automóvel
um meio de transporte particular e que no máximo transporta cerca
de 200 kg além de sua própria massa - mínima de
800 kg - o que significa 3 a 4 pessoas; um número cada vez maior
de unidades circulando, exigindo uma rede complexa de investimentos
pesados, sem deixar de lançar quantidades de poluentes no meio
ambiente.
Então, emissão e composição de poluentes,
estradas, pontes, viadutos, passarelas, transporte coletivo, pedágios
também não poderiam ser "conteúdos transversais"
em parte atendidos pela Física ou pelo conjunto das disciplinas
de ciências, sem negligenciar a tecnologia? E, quando da instalação
de uma montadora em uma região, parece que os supostos benefícios
superam amplamente os eventuais riscos e prejuízos e que a grande
empresa está favorecendo tanto a região e seus habitantes
que naturalmente as concessões devem ser ilimitadas.
E o pró-álcool? Uma fonte de energia renovável,
com inegáveis contribuições da ciência e
tecnologia brasileira, parece também um assunto distante, da
origem à sua extinção. Por que pararam as pesquisas?
É possível que tenha faltado interesse para se entender
que isso poderia contribuir bastante para nossa independência
energética e viabilizar um salto em termos tecnológicos.
Pensamos que, dentre os envolvidos, apenas muito poucos teriam clareza
do significado do êxito deste programa em termos políticos,
culturais, administrativos e econômicos.
Decisões coletivas de grande interesse social e econômico
numa região como a instalação de uma montadora,
ou em todo o país, como as mudanças de hábito frente
às pressões pelo racionamento de energia elétrica,
merecem participação mais explícita e consciente
da parte dos cidadãos; a escola pode cumprir melhor seu papel
neste desafio.
|
| |
| QUAL O PAPEL DOS OBJETOS TÉCNICOS?
COMO INSERI-LOS NO CONTEXTO ATUAL? |
|
Marx utilizou a mercadoria (o nosso objeto técnico)
para analisar a sociedade capitalista. Buscamos analisar uma proposta
de formação de professores de Física, partindo
da investigação de objetos técnicos, que é
uma mercadoria na sociedade capitalista, para entendê-la. Ou melhor,
levantar suas contradições e a partir da problematização
de conceitos e práticas envolvidas no funcionamento e fabricação
destes objetos construirmos e entendermos o processo de abstração.
Seja, como proposta na formação de professores com a investigação
temática, seja, como proposta no ensino de Física, a partir
do estudo de princípios, leis e teorias envolvidos em "Como
funcionam as coisas".
A investigação temática, significa, via um processo
de investigação-ação educacional, compreender
e incorporar como o conhecimento científico é transformado
em conhecimento educacional. Trata-se de um processo de codificação,
descodificação e recodificação, no qual
procura-se uma lógica das bases científicas mediante as
quais esse objeto técnico é estruturado e, posterior reconstrução
racional do conhecimento científico. É a isso que estamos
chamando de caminho da abstração. É um conjunto
de ações de descobertas, de desvelamentos, estudo e reelaborações,
onde educadores e educandos estão guiados pela força do
desafio da busca. Não há receitas, mas perguntas, indagações,
dúvidas e uma imensa curiosidade epistemológica (FREIRE,
1997).
Como resultado científico-tecnológico, o objeto técnico,
é uma mercadoria, elemento básico da economia capitalista
e apresenta um duplo caráter do trabalho nele materializado.
"Enquanto valor-de-uso, esse objeto é produto do trabalho
concreto, de trabalho determinado qualitativamente. Na medida em que
é produzido para a troca, esse objeto enquanto mercadoria é
produto de trabalho abstrato, do puro 'dispêndio da força
humana de trabalho', do trabalho igualado socialmente, trabalho que
corresponde à média em vigor em uma dada sociedade cuja
única determinação é quantitativa"
(BRYAN, 1998:44).
Ao nos propormos discutir uma proposta educacional em Física
a partir de 'como funcionam' objetos técnicos, temos consciência
de que a tecnologia tem suas implicações. Por um lado
a opressão do trabalhador e, por outro, um elemento revolucionário,
inclusive, criando condições técnicas que nos possibilitará
a construção de melhores condições de trabalho
e uma melhor qualidade de vida. Segundo Postman (1994: 29): "Uma
tecnologia nova não acrescenta nem subtrai coisa alguma. Ela
muda tudo".
Para nos posicionarmos conscientemente a respeito dos avanços
científicos e/ou tecnológicos é preciso entender,
também, o que é tecnologia, o que a diferencia de técnica
e principalmente de prática tecnológica. Neste sentido,
Pacey (1990), em 'A Cultura da Tecnologia', inicia perguntando se: a
tecnologia é neutra em termos culturais? Responde dizendo que
sim, se considerarmos os princípios de fabricação
e funcionamento de algumas máquinas. Mas, diz ele que não,
se levarmos em conta a trama de atividades humanas que cerca a máquina
e que inclui os usos práticos, sua função como
símbolo de posição social, bem como o fornecimento
de combustível e peças, as pistas turísticas organizadas
e a destreza de seus donos, etc. Desta maneira nos coloca que a tecnologia
é vista assim, como parte da vida e não como algo separado,
e que certos produtos tecnológicos denotam um certo 'estilo de
vida' por quem a utiliza.
O que deve ser levado em conta é que a palavra 'tecnologia' tem
sido empregada com significados diferentes e que muitas vezes confunde-se
técnica com tecnologia e nem se usa a expressão 'prática
tecnológica'. Pacey (1990) sugere que para entendermos melhor
essas questões devemos utilizar o conceito de prática
tecnológica, quando passaríamos a perceber alguns aspectos
da tecnologia que estão ligados aos valores culturais e mais,
àqueles independentes deles. Passaríamos então
a entender tecnologia como atividade humana e sendo assim: "A consideraríamos
como algo que implica não somente máquinas, técnicas
e conhecimentos rigorosamente precisos, mas também padrões
de organização característicos e valores ambíguos"
(PACEY, 1990:17). Sendo assim, a prática tecnológica,
difere de um país a outro. O que é compreensível,
pois, existem 'visões de mundo' diferentes, 'estilos de pensamento'
distintos. Técnica, relaciona-se a conhecimentos úteis,
que podem ser utilizados em muitos e diferentes países. Aponta-se
essa contradição a partir do que Pacey diz: "...
seria possível destacar um substrato de conhecimento, técnica
e princípio subjacente de engenharia, de validade universal capaz
de ser aplicada em qualquer parte do mundo" (PACEY, 1990:17).
Pacey (1990) defende que com a concepção de prática
tecnológica poderia nos levar a observar aspectos da tecnologia
que estão ligados aos valores culturais, e mais, outros valores
que são independentes deles. Sendo assim, estaríamos entendendo
a tecnologia enquanto atividade humana e como parte da vida.
Pacey (1990), coloca que a tecnologia é entendida enquanto prática
tecnológica, pois, como diz: "A consideraríamos como
algo que implica não somente máquinas, técnicas
e conhecimentos rigorosamente precisos, mas também padrões
de organização característicos e valores ambíguos"
(PACEY, 1990:17). Valores ambíguos, duvidosos ou em desacordo,
padrões organizativos e conhecimentos rigorosos precisos presentes
em sua definição é o que reforça a idéia
de que a investigação (o processo de codificação,
descodificação e recodificação) de objetos
técnicos pode gerar um programa explorando as relações
entre CTS, via concepção de equipamento geradores .
Pacey (1990:18) nos diz: "Ao fazer a definição precisa
do conceito de tecnologia prática, é necessário
refletir detidamente sobre os aspectos humanos e sociais". Mas,
para a entendermos em um sentido mais abrangente é preciso compreender
que: "... é necessário estender ainda mais nossa
definição para abarcar o 'componente orgânico',
tanto como a estrutura, pela qual a tecnologia prática vem a
ser a aplicação do conhecimento científico ou organizado
nas tarefas práticas por meio de sistemas ordenados que incluem
as pessoas, as organizações, os organismos vivos e as
máquinas" (PACEY, 1990:21).
Uma lâmpada incandescente ou fluorescente (fonte, propagação,
efeito joule); uma garrafa térmica (paredes adiabáticas,
isolamento térmico, trocas de calor); uma máquina fotográfica
(imagens, escalas, óptica), um automóvel ou similares
(mecânica e termodinâmica, balanços de massa e de
energia), um disco lazer, são opções dentre um
amplo leque de possibilidades.
Precisamos ainda, especificar como é feito esse processo de desvelamento
dos princípios físicos (conhecimento científico)
que fundamentam tais objetos técnicos e suas relações.
É preciso lembrar que não estão dados e que é
preciso investigar. Avançamos em termos teórico-práticos,
pois, além dos aspectos técnicos e práticos inserimos
aspecto libertador -- o conhecimento crítico--, resultado de
investigação das próprias práticas, na qual
não apenas interpretamos a realidade, mas sobretudo, buscamos
a transformação. Estamos propondo um projeto integrado
ou programa de pesquisa, o que reflete as exigências contemporâneas.
Neste sentido nos contrapomos a 'visão de túnel da engenharia',
que segundo Pacey (1990), significa "uma visão da tecnologia
que inicia e termina com a máquina". Ou seja, uma compreensão
linear da tecnologia. Mesmo porque, concordamos com este mesmo autor
quando diz: "Abrigar a esperança de uma solução
técnica para qualquer problema que não inclua medidas
culturais e sociais, é mover-se em um terreno ilusório"
(PACEY, 1990:25). Parece-nos mais uma justificativa para a inclusão
do conhecimento científico-tecnológico em nossa cultura.
Esta, no nosso entender é uma estratégia pedagógica
e epistemológica que temos adotado, ou melhor, construído
para viabilizar a alfabetização técnica e científica
na formação de professores e consequentemente no ensino
fundamental e médio. Intencionalmente, "o que se pretende
é que o homem mexa, desmonte, penetre, compreenda, domine"
Bazin (1977:95). De uma maneira formal, na escolarização,
pode-se imaginar pela investigação de objetos técnicos
pelos envolvidos no processo educativo, em que possam manejar lentes,
descobrir a formação de imagens e as possibilidades de
ampliação, ou retenção das mesmas. Assim,
entender o funcionamento da máquina fotográfica. Ou, como
diz Bazin (1977:95), "através do manuseio de duas lentes
acabarão por descobrir o que é um telescópio".
Significa, também, viabilizar ao trabalhador em educação,
o professor, a construção de auto-entendimento sobre sua
própria prática, o que pode ser potencializado pela incorporação
da cultura de investigação destas.
Entendemos que o ato de conhecer deve iniciar-se com a problematização
da realidade, o que inclui problematizar conceitos e práticas.
E que a mediatização desse processo estabelecer-se-á
com o diálogo em torno de um objeto técnico quando, pelo
manuseio reflexivo destes problematiza-se e investiga-se os mesmos,
transformando-os em equipamentos geradores. Esse processo é o
que descreveremos a seguir.
|
| |
| QUAL É A PROPOSTA QUE ESTÁ
SENDO CONSTRUÍDA E COMO ESTÁ SENDO CONSTRUÍDA? |
|
Nesta investigação temática,
os alunos são levados a investigar e transformar um objeto técnico
em equipamento gerador. Estamos chamando equipamento gerador, pois,
como estamos agindo-refletindo-agindo no ensino formal, esta é
uma das possibilidades de desvelar, recriando e reinventando a concepção
de 'temas geradores'; incorporação dos universais da Física,
bem como, compreensão de manuais de instalação
e utilização de aparelhos. Trabalhando a investigação
temática em sua acepção mais abrangente que uma
simples alternativa metodológica, e sim, como um princípio
formativo, intrinsecamente identificado com uma concepção
de educação e de investigação.
Antes, é necessário esclarecer o que estamos fazendo e,
em pequena escala, pensamos até estarmos transformando nossa
realidade, dentro de pressupostos que entendemos devem estar presentes
no contexto da formação dos profissionais da educação,
especialmente, dos profissionais em Física.
Cobra-se dos professores saber trabalhar com os temas significativos
aos envolvidos no processo educativo, mas ao mesmo tempo isso não
é trabalhado enquanto 'conteúdo' do curso de licenciatura
em Física. Ou melhor, não é trabalhado em sala
de aula com esses futuros profissionais da educação em
Física, como chegar a esses temas significativos. Nem tudo é
igualmente importante. Cabe priorizar. Para isso há que investigá-los.
Da mesma maneira que não é trabalhado como se chegar,
a partir desses temas, ao plano de curso. Em contraposição
a isso é que incorporamos essa tarefa como sendo 'conteúdo
significativo' da e na formação dos profissionais da Física.
Ou, no dizer de Bazin (1999:9): " ... no caso específico
de 'fazer ciência' como atividade de conscientização,
a prática precisa elaborar seus próprios 'temas geradores"
ou, mais realisticamente, seus 'equipamentos geradores' tecnológicos
que permitam desvelar os princípios científicos que sustentam
o seu funcionamento".
Em síntese, a concepção de alfabetização
técnica-científica que está sendo reinventada e
recriada é basicamente para levar os educandos da licenciatura,
futuros profissionais da Física à investigação
temática, que pode prescindir do seguinte: "chegar a sistematizar
as observações, reconhecer o fenômeno mais geral
e procurar novos materiais para pesquisá-lo mais ainda"
(BAZIN, 1999:9).
Ao relatar como é feito na licenciatura em Física na disciplina
de Metodologia e Prática de Ensino de Física, é
necessário levá-los a compreender como se realiza a investigação
temática. É preciso levá-los a entender que os
seus educandos só vão falar se entenderem a pergunta e,
principalmente, se eles tiverem algo a dizer sobre o que lhes é
perguntado. As perguntas podem ter respostas para quem as faz, mas a
quem elas se destinam podem não fazer sentido, portanto, não
suscitarem o diálogo, que é o que nos interessa.
Precisamos discutir, entender e tensionar: o que é um problema
para nós educadores, é necessariamente um problema para
nossos educandos? Parece-nos que a tarefa investigativa-ativa colocada
é justamente: compreender como tornar um problema que é
problema para nós em problema para eles. Ou melhor, compreender
como levá-los a entender e tomar a realidade como problemática
e problematizavel.
Temos que encaminhar os educandos a perceber que para desencadear o
diálogo, depende da pergunta que se faz. Ou seja, mostrar que
o problema as vezes pode estar mal formulado e por isso não tem
potencial para desencadear um diálogo! E, consequentemente, ser
colocado como problema que desencadeie a construção de
conhecimento, pois, viabilize um processo de investigação.
Então, se a temática é óptica, como podemos
codificar-descodificar, para recodificar investigando o que lhes é
significativo e portanto, efetivar o diálogo entre os envolvidos?
Oportunizar que os envolvidos, especialmente os educandos, explicitem
o seu pensar em relação à temática que está
sendo problematizada, pois, é a partir dele que vamos investigar
o que lhes é significativo.
Analisar os objetos técnicos para ver se é possível
a partir de como ele funciona, trabalhar todos os conceitos envolvidos.
Mostrar que essa tarefa é feita no grupo de professores (no caso
dos estagiários, futuros professores), não necessariamente
com seus alunos. Isto eqüivale a redução temática
em FREIRE (1987). A partir da lista de objetos técnicos levantados
é feito uma seleção segundo as possibilidades destes
sustentarem um plano de curso para a temática a ser trabalhada.
Feita essa escolha e deliberação pelo grupo, dá-se
continuidade à investigação, desenvolvendo os tais
conteúdos significativos envolvidos no funcionamento e fabricação
deste objeto técnico. No desvelamento de tais princípios
é que se conduz os educando à incorporação
desses conhecimentos científicos transformando-os em conhecimentos
educacionais, uma vez que é uma investigação e
que com ela objetivamos, analisar e compreender o potencial destes objetos
ao ser transformados em equipamentos geradores.
É importante observar, salientando que as vezes, deixa-se de
lado este objeto, quando é hora de trabalhar com um determinado
fenômeno e/ou conceito. A reflexão por exemplo, e se realiza
atividades práticas e teórico-experimentais com espelhos.
Estuda-se os tipos de espelhos, a formação de imagem,
etc. e depois volta-se ao objeto que está sendo investigado,
incorporando como os espelhos colaboram no funcionamento do referido
objeto (a máquina fotográfica). Ou, na geladeira quando
é estudado 'trocas de calor', busca-se a partir de como funciona
a garrafa térmica, explicar esses processos. Ou seja, elabora-se
atividades práticas e teórico-experimentais com esses
outros objetos para poder levar os estudantes a entender, como funciona
o nosso equipamento gerador e qual é a função do
espelho no funcionamento da máquina, ou explicar por outras vias
os processos de trocas de calor e também, as correntes de convecção.
Isto nos leva a entender também, o fenômeno da reflexão
para o funcionamento da máquina.
Enquanto esse desvelamento é concretizado, vão-se transformando
os perfis dos envolvidos em investigadores ativos. E mais, para relembrar,
esse desvelamento vai se dando no processo de investigação-ação,
na vivência e construção da espiral auto-reflexiva
de fases de planejamento da ação (plano de aula/atividade
educacional), ação (aula propriamente dita), observação
(registros de informações, 'dados', importantes para responder
ao problema) e reflexão (análise do que foi registrado
e consequentemente, apontamento de caminhos para o replanejamento da
nova ação). Podemos até inferir que este seria
o momento de construção de novas hipóteses, que
nos levariam a novas experiências, que são as aulas propriamente
ditas.
|
| |
| BIBLIOGRAFIA |
|
ANDERSON, S. e BAZIN, M. Ciência e (in)dependência.
Livros Horizonte, Lisboa, 1977 (2 volumes).
ANGOTTI, José André Peres. Fragmentos e Totalidades no
Ensino de Ciências. Tese de Doutoramento, FEUSP, 1991.
ANGOTTI, José André Peres. Conceitos Unificadores e Ensino
de Física. Revista Brasileira de Ensino de Física. Vol.
15, nºs (1 a 4), 1993.
ANGOTTI, J.A.P. e DELIZOICOV, D.N. Metodologia do Ensino de Ciências.
Cortez, São Paulo, 1992a.
ANGOTTI, J.A.P. e DELIZOICOV, D.N. Física. Cortez. São
Paulo, 1992b.
BAZIN, Maurice. Ciência na Cultura? Uma Práxis de Educação
em Ciências e Matemática: Oficina Participativa. 1999.
(mauriceb@exploratorium.edu).
BAZZO, Walter Antonio. Ciência, Tecnologia e Sociedade: e o contexto
da educação tecnológica. Florianópolis:
Ed. UFSC, 1998.
BLOOMFIELD, Louis A. HOW THINGS WORK: The Physics of Everyday Life.
J,Wiley, USA. 1997.
BRYAN, Newton Antonio P. EDUCAÇÃO, TRABALHO E TECNOLOGIA
EM MARX. Educação e Tecnologia: Revista Técnico-Científica
dos Programas de Pós-Graduação em Tecnologia dos
CEFET'S -PR/MG/RJ. 1998.
CARR, W. e KEMMIS, S. Teoria Crítica de la Enseñanza:
Investigación-acción en la Formación del Profesorado.
Martinez Roca, Barcelona,1988.
CHALMERS, A. F. O que é ciência afinal? São Paulo,
Brasiliense, 1993.
DE BASTOS, F.P. Alfabetização Técnica na Disciplina
de Física: uma experiência educacional dialógica.
Dissertação de Mestrado, UFSC/CED/PPGE, Florianópolis,
SC, 1990.
___________. Pesquisa-ação Emancipatória e Prática
Educacional Dialógica em Ciências Naturais. Tese de Doutorado.
São Paulo, IFUSP/FEUSP, 1995.
FOUREZ, Gérard et al. Alfabetización Científica
y Tecnológica: acerca de las finalidades de la enseñanza
de las ciencias. Ediciones Colihue S.R.L. Buenos Aires, Argentina 1997.
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1997.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.
GREF. Física vol. 1, 2 e 3. São Paulo, EDUSP, 1990. (Vários
autores).
HABERMAS, Jürgen. Conhecimento e Interesse. Rio de Janeiro, Guanabara,
1987.
HOROWICZ, Ricardo J. LUZ, CORES -- AÇÃO: A Ótica
e suas aplicações tecnológicas. Ed. Moderna. São
Paulo.1999.
LAKATOS, I. e MUSGRAVE, A. (orgs.). A Crítica e o Desenvolvimento
do Conhecimento. São Paulo, EDUSP/Cultrix, 1976.
MENEZES, L. C. Trabalho e visão de mundo: Ciência e tecnologia
na formação de professores. Revista Brasileira de Educação.
pg. 75-81. Jan/Fev/Mar/Abr. 1998.
MENEZES, L. C. Vale a pena ser Físico? São Paulo:Moderna,
1988.
MION, Rejane A. et al. Mudando o Trabalho Educativo de Formar Professores
de Física. PERSPECTIVA: Revista do Centro de Ciências da
Educação. Florianópolis, v18,n.33, p.93-114, jan./jun.2000.
MION, Rejane A. et al. Educação em Física: discutindo
ciência, tecnologia e sociedade. Revista Ciência & Educação.
Vol.7, n° 2, Dezembro, 2001.
MOREIRA, Marco A. Ensino de Física no Brasil: Retrospectiva e
Perspectivas. Revista Brasileira de Ensino de Física. Vol. 22,
n°. 1, Março, 2000.
PACEY, Arnold. La Cultura de la Tecnología. Fundo de Cultura
Económica, México, 1990.
POSTMAN, N. Tecnopólio: a rendição da cultura à
tecnologia. São Paulo: Nobel, 1994.
SNOW, C. P. As Duas Culturas e uma Segunda Leitura. EDUSP, SP.1995.
THUILLIER, Pierre. O Contexto Cultural da Ciência. Revista Ciência
Hoje. Jan/Fev, 1989.
WINNER, Langdon. La Ballena y el Reactor - Una búsqueda de los
límites en la era de la alta tecnologia. Barcelona: Gedisa, 1987.
|
| |
|
|